segunda-feira, 14 de março de 2011


“ O Sorriso esquecido “
"Atravessamos o salão a correr e saímos para a escuridão. O ar frio da noite dilacerava-me os pulmões enquanto fugíamos. Senti-o apertar-me a mão e fiz o mesmo. Tratou-se – suspeito – de uma atitude reflexiva.
Entramos de rompante num outro edifício, e subimos ao terraço, convencidos de que tínhamos conseguido escapar. Sentei-me num canto e fiquei atenta ao barul"ho que se tornava cada vez mais distante. Na verdade, estava adiando o momento em que teria que falar com ele. A perspectiva assustava-me.
De súbito, dei comigo a observá-lo, os nossos olhos encontraram-se, e ele, constrangido, ameaça baixar a cabeça, mas acaba por sorrir apenas. Nesse instante apercebi-me – tinha chegado a altura que tanto tentei adiar.
- Porque me salvaste? – Perguntei. A minha voz ecoou no espaço frio e escuro.
- Receei perder-te. – Respondeu no seu tom de voz calmo do habitual.
Nesse momento desejei estar inspirada para lhe dar uma resposta com sentido, mas durante aqueles breves segundos em que tentei encontrar as palavras certas, acabei por perder a noção do essencial, e limitei-me a dizer:
-As coisas que fazes, as coisas que dizes, que te esqueces e lembras, é tudo contabilizado para avaliar o impacto do amor, se é que realmente o sentes.
Nunca pensei que tais palavras me saíssem, assim derrepente. Foi uma atitude estranha, admito.
Ele anuiu e levantou-se. Notei que a sua expressão tinha mudado. Pela primeira vez deixara de ser doce. E isso pude confirmar quando se aproximou da beira do terraço e subiu para o pequeno murinho, olhando para baixo. O prédio era alto.
- Desce daí, podes cair… - disse eu calmamente, tentando não mostrar o meu medo.
Mas ele não desceu. Em vez disso, pôs-se a andar de um lado para o outro, até que parou e disse:
- As nossas conversas giram sempre em torno do que tu pensas, do que tu queres…
Lentamente, levantei-me.
- Desculpa, nunca pensei que te magoasse tanto – respondi, sentindo o pesar das palavras.
- Nunca me tentaste ouvir… Se o que eu digo não te faz diferença, para quê falar?
Pelos seus movimentos, apercebi-me rapidamente que ele ia-se jogar.
- Naooooooooooooooooooooooooooooo! Por favor não - Gritei num tom de súplica.
- Eu dei-te tanta importância que o resto acabou por ter muito menos interesse.
- Eu percebo… Ainda não é tarde demais! Vem comigo, vai ficar tudo bem – Respondi-lhe limpando as lágrimas que escorriam cada vez mais.
Ele hesitou, olhou-me durante alguns segundos e acabou por concordar.
Ele sorriu, e eu sorri ainda mais, apesar de ainda ter lágrimas no rosto. E o que aconteceu depois foi extremamente estúpido. Ele preparava-se para descer o murinho quando escorregou e caiu do prédio. Quando vi o seu corpo deslizar prédio abaixo, o ritmo cardíaco aumentou e a adrenalina disparou. Quis correr, agarra-lo e não te deixar ir. Mas era tarde.
O seu corpo tornou-se distante, e o meu sorriso esquecido. "

RESUMO:Por vezes nao damos grande importancia as coisas.So quando sentimos falta delas é que as procuramos. Mas um dia podemos chegar tarde demais.E depois ja nao ha nada a fazer.